Negar a razão é se fazer cego Restou apenas a carcaça Morreu só e isolado Negou tudo (Em) conspiração Seguiu o líder Primeira perdição Perdição Disseminou falsa informação Separou ciência e razão Contaminou todos sem pudor Assassino leal e sem alma Quando o ar faltou Não havia ninguém Isolado e só Sem deus e sem mito Ninguém por ti Morte solitária Ninguém chorou Foi esquecido O teto girou e tudo ao redor Em seguida, ninguém ouviu o baque do corpo contra o piso O telefone tocou e ninguém ouviu Do lado de fora da janela O cinza profundo da cidade se pronunciava com peso sobre toda paisagem Moldando uma frieza de coração Germinada no medo que embaça as janelas solitárias O vizinho de cima deixou de sair com o cachorro Já o debaixo, mudou-se com a esposa para um lugar qualquer O pequeno prédio tornou-se um mausoléu Um gaveteiro de corpos esquecidos entre móveis Contas empilhadas embaixo da porta Comida apodrecida na geladeira E animais de estimação que se canibalizarão uns aos outros E morrerão depois de seus donos Pela rua, os desgraçados que ignoram o vírus Circulam com máscaras abaixadas Em direção a um futuro incerto Entre eles, os suicidas involuntários que tiveram de escolher Entre sobreviver para matar a fome Ou escapar da loteria mortífera da pandemia Alienação e confinamento Todos tossem, escarram, respiram com dificuldade O corpo tem febres Gritando através das dores que a solução venha logo O prédio, o bairro e todo entorno jaz num silêncio morto Uma ausência das vidas Vidas ceifadas pelo descaso e a opção de Ofertar a morte aos pobres no atacado Ambulâncias correm noite e dia, sem dar conta da demanda Cemitérios abrem covas como se fosse tempo de guerra Uma campanha de difamação é movida em redes Onde o raciocínio se restringiu a aceitar a realidade fictícia E abraçar o irreal como matéria Dentro do apartamento, tombado sobre o carpete O ar não alimenta mais o corpo Uma dor atroz toma conta de tudo Enquanto a escuridão vai dominando os campos da visão periférica A inflamação descontrolada, percorre nervos, pele, células Pondo a proteção do corpo como um veneno que mata o próprio Alguém agoniza, sentindo a falta de ar Mas também pelas decisões equivocadas O ataque às vacinas A descrença no sistema de saúde O apoio irrestrito do genocida na cadeira de líder Ignorou os números e os cuidados, desfez relações Apartando quem se importava como quem joga fora peças descartáveis Deixou-se alienar, ignorando tudo e contaminando outros milhares "A economia não pode parar" Falou o patrão que não precisava se expor "Minha liberdade antes da máscara" Disse o outro sem saber que morreria semanas depois Mais de meio milhão de vidas não tiveram a chance de escolha Não tiveram tempo para a vacina E de uma forma ou de outra todos estamos morrendo Por imprudência, por descaso ou por projeto Alienação e confinamento Da mesma maneira que o indivíduo é tomado pela falência de órgãos Que vai matando-o de dentro para fora, o corpo social padece Os sistemas de saúde tornam-se sobrecarregados A doença faz o corpo inimigo de si próprio A sociedade se permitiu ficar inimiga da verdade E ficar mesquinha e irresponsável diante das consequências Quando a falência múltipla vence a escuridão é completa Ninguém chora por esse, ninguém sente falta Não há lembranças ou choros de enlutados Resta apenas o vazio dos confinados e ignorantes